quinta-feira, 26 de maio de 2016

Capítulo 7 – Acabando com o valentão - Livro: Triste ao sonhar com os anjos

Livro: Triste ao sonhar com os anjos

Capítulo 7 – Acabando com o valentão


            Andávamos pelas ruas do Grass Valley (eu, Paul, Jim e Lucy) quando soubemos que Lang havia sido avistado na região. Passado alguns dias, pudemos constatar que nosso amigo realmente havia retornado. A partir daí, nossa amizade voltou com força total.
            Lang, agora reconciliado com a família, estava mais louco do que nunca. Por essa época, ele se apaixonou por Ivy, uma garota que conhecíamos de vista, mas o romance não se desenrolou e Lang acabou esquecendo a mesma rapidamente. Outro fato digno de nota era quando eu acompanhava Lang nas suas idas à “feira do rolo”, onde o mesmo aproveitava a ocasião para trocar peças de bicicleta com os “rolistas” ali presentes.
            Lang era forte e poderia ganhar qualquer briga facilmente, apesar de não ser um cara violento. Porém, quando o inimigo era o valentão Celeste, este intimidava Lang facilmente, por motivos que não sei explicar (já que os dois tinham praticamente o mesmo tamanho e força). Mas Lang resolveu, certa vez, acabar com a valentia de Celeste. Lang era o mais novo de três irmãos, mas tinha uma irmã mais nova que ele também. Um dos irmãos de Lang, o Yano, era o irmão do meio e era muito bom de briga. Lang pediu para o seu referido irmão ficar escondido atrás de uma árvore, enquanto ele provocava Celeste, que vinha se aproximando. Quando Celeste foi agredir Lang, Yano apareceu, de punhos fechados, pronto para a briga. Celeste ficou desesperado, quase chorou mas, para sua sorte, um vizinho que por ali estava não deixou Yano bater em Celeste. Após esse fato, não me lembro de ter visto Celeste mexer com Lang novamente.

            Fiquei sem ver Pam por um tempo. Quando consegui vê-la novamente, foi numa situação muito dolorosa para mim: ela estava ficando com outro garoto, nas proximidades da igreja. Walter e eu estávamos passando por lá e vimos Pam com o outro rapaz. Algum tempo depois, ela acabou ficando com Jim, na igreja mesmo, mas por essa época eu estava aceitando o fato de que Pam, talvez, nunca pudesse ser só minha e acabei não ligando muito para a situação. Porém, o que eu não sabia era que, tempos mais tarde, existiria uma rivalidade muito forte entre eu e Jim em relação ao que sentíamos por Pam. O fato de Jim ter ficado com Pam naquela ocasião foi o início de tudo.

domingo, 21 de junho de 2015

Capítulo 6 - Palhaçadas - Livro: Triste ao sonhar com os anjos

Livro: Triste ao sonhar com os anjos

Capítulo 6 - Palhaçadas


             Lang partiu, mas suas “aprontadas” ficaram gravadas em nossa mente. São tantos fatos que receio me esquecer de algum, mas vou tentar narrar tudo o que lembro, aos poucos.
            Certa vez, Lang resolveu ser uma espécie de “montador” em cavalos, como Paul já era. Paul possuía os apetrechos necessários (como a sela de montaria), ao contrário de Lang, que nada tinha. Assim, Lang montava direto nas próprias costas dos cavalos, “no pêlo”, sem sela nenhuma. Suas primeiras tentativas de montaria até que tiveram um certo êxito: Lang montava, o cavalo dava algumas voltas e, quando se cansava, nosso amigo descia sem problemas das costas do animal. Isso até o dia em que um dos cavalos “disparou”, com Lang em suas costas. Gritando em desespero (“peloamordedeus”, “peloamordedeus”), Lang só foi descer do cavalo quando este trombou em um portão. Por sorte, ninguém se machucou (nem o cavalo, nem Lang). Mas foi sua última tentativa de montaria.
            Lang brincava e “tirava sarro” de todo mundo, mas se deu mal duas vezes ao fazer isso com nosso amigo Chad. A primeira vez foi quando os garotos resolveram empinar suas pipas e Lang, com seu “Cerol”, cortou a linha de Chad, na frente da avó do mesmo. A velhinha ficou possessa e Lang teve que ouvir uma “enorme bronca”.  Na segunda vez, Lang pegou a bola de futebol de Chad e chutou atrás do muro da igreja, onde havia alguns cães ferozes. Enquanto isso, outro amigo nosso, o Wand, aproveitava para imitar a voz da avó de Chad: “O que é que você quer com o Chad? O Chad não está aqui, o Chad morreu!”. Chad ficou furioso com Lang e Wand: correu para sua casa, para avisar os seus familiares que os dois estavam mexendo com ele. Wand aproveitou esse meio tempo para ir embora, pois não queria ouvir os xingos da família de Chad. Lang resolveu ficar e ver o que iria acontecer. Em poucos instantes, foi possível visualizar, virando a esquina, quase a família inteira de Chad: sua mãe, sua avó, seu tio, suas tias... Lang viu que a coisa ficaria feia e, assim que toda a gangue chegou perto dele, já tirou do bolso algumas notas e disse que estava disposto a pagar a bola perdida. O tio de Chad não aceitou, dizendo que jogaria Lang do outro lado do muro, com os cães, se o mesmo não fosse buscar, de livre e espontânea vontade, a bola original. Lang não conseguiu pular o muro (e enfrentar os cachorros). Assim, teve que dar a Chad uma bola de futebol que lhe pertencia.
            Em outra ocasião, Lang entrou em uma discussão durante um jogo de futebol. O cara chato com quem ele discutia não me lembro ao certo, mas o mesmo conseguiu tirar a paciência de Lang. Em um dado momento da discussão, Lang tirou sua própria camisa, ateou fogo na mesma e correu atrás do infeliz, que teve que fugir para não ser “queimado vivo”.
            Os mergulhos na poça d´água (existente no centro do campo de futebol) também se tornaram célebres: Lang tomava distância, vinha correndo e mergulhava de barriga na água imunda. Ele parecia ficar contente quando a bola era chutada na lama, pois era mais uma chance dele dar um bom mergulho, enquanto nosso amigo Cearense Bud protestava: “Não faça isso menino, essa água suja entra no seu pênis e te contamina”. Mas o aviso era em vão, Lang não se intimidava e não tinha medo nenhum de pegar alguma doença (e, por sorte, nunca pegou).
            Falando ainda em futebol, Lang dava duro durante os jogos, transpirava muito, de modo que sua camisa ficava totalmente fétida. Ao final dos jogos, Lang corria atrás dos meninos menores que ficavam lhe provocando e esfregava sua camisa na cara dos mesmos.  “É nitroglicerina pura”, dizia ele. Ou, ao invés disso, pegava aqueles coquinhos melados (que dava nos coqueiros, não me lembro ao certo a sua denominação) e esfregava na cabeça dos menores provocadores, dizendo que era shampoo.
            Lang, realmente, era o rei das “aprontações”, mas não era o único. Lumium, outro amigo nosso, também aprontava bastante. Sua vítima constante era o nosso amigo peso pesado Dudley. Certa vez, o pobre Dudley está sentado na calçada, quando Lumium ajeitou uma bola de futebol na direção do garoto e a chutou direto no seu rosto. Dudley queria acabar com Lumium, que teve de correr para não apanhar (Dudley era muito forte). Mas o caso mais célebre foi quando os dois combinaram de cada um ficar em uma esquina e, em dado momento, virem correndo um na direção do outro (Lumium de bicicleta, Dudley com todo o seu peso) de modo que, no final, tudo resultasse em uma grande “trombada”. Dudley levou uma pancada no joelho, proveniente do pneu dianteiro da bicicleta, enquanto Lumium acabou sendo lançado da mesma, ganhando alguns arranhões.
            Em um mundo onde impera a tristeza e a maldade, é muito bom aproveitar os momentos com os amigos para dar boas risadas. São fatos que ficam para sempre em nossa mente, e não é difícil, mesmo com o passar do tempo, lembrarmos novamente das “aprontações” e ainda acharmos graça de tudo aquilo que aconteceu. 

sábado, 7 de março de 2015

Capítulo 5 - Quando a felicidade se transforma em tristeza - Livro: Triste ao sonhar com os anjos

Livro: Triste ao sonhar com os anjos

Capítulo 5 - Quando a felicidade se transforma em tristeza



            Não era apenas com Pam e Cindy que eu me estava envolvendo, por essa época. Uma outra garota, chamada Lisa, estava se tornando minha amiga. Ela, que tinha uma amizade fortíssima com Pam, acabou cortando relações com a mesma, por motivos que desconheço.  Lisa era baixa, magra e tinha cabelos negros e compridos. Era um pouco sistemática e impaciente (inclusive, acredito que foi esse o motivo do desentendimento dela com Pam). Em certa ocasião, fiquei sabendo (por intermédio de alguém) que Lisa estava apaixonada por mim.
            Deve ter sido, com muito pesar, que Lisa contemplou uma terrível visão (para ela): eu e Pam nos beijando, na sala da casa de Paul. Estava ocorrendo uma festa naquela noite, e foi a oportunidade perfeita de eu poder ficar com Pam. Aquilo, com certeza, abalou a minha amizade com Lisa. Se, pelo menos, eu estivesse com alguma outra garota que não fosse Pam! Mas o destino quis que eu beijasse a menina que Lisa mais tinha rancor.
            A festa, aparentemente, estava animada. A única coisa estranha era que Lang ainda não havia comparecido ao local. Durante essa época, Lang não fazia outra coisa senão ficar atormentando as garotas com suas brincadeiras. Eu achava muito engraçado, mas as meninas não gostavam nenhum pouco. Lang utilizava o adjetivo “gostosa” regularmente e frases do tipo “está chovendo na minha hortinha”. Certa vez, Lang ficou provocando Pam até que a mesma perdesse a paciência e corresse atrás dele, enquanto ele gritava “pare, isto não está na constituição”.
            No decorrer da festa, Adam Ball, bastante abatido, finalmente nos esclareceu tudo a respeito de Lang: ele havia se desentendido com seu pai e havia sido expulso de casa. Foi horrível receber aquela notícia! Jim e eu ficamos transtornados! Lang era um cara louco, mas por outro lado era legal, irreverente, engraçado... Enfim, tinha seus defeitos, mas era um grande amigo. Alguns minutos mais tarde, ele acabou aparecendo na festa para se despedir. Fiz questão de acompanhar Lang até o ponto de ônibus. Ele disse que passaria a noite na casa de um parente. Na manhã seguinte, partiria para a cidade de Americana, talvez para nunca mais voltar.
            Depois que Lang tomou o ônibus, voltei sozinho para a casa de Paul. Já passava das 21h e, contemplando a escuridão da noite, pude averiguar como as nossas felicidades são substituídas facilmente pelas tristezas, de uma hora para a outra. Apesar de magoar Lisa, foi um momento bastante especial ter ficado com Pam naquela noite, uma felicidade substituída, posteriormente, pela tristeza de perder o amigo Lang. A intensidade da tristeza, muitas vezes, ultrapassa facilmente a intensidade da alegria (como no presente caso).


            Adam Ball, por sua vez, foi muito mais lesado pelas circunstâncias do que eu: além da perda de Lang, não conseguiu se aproximar de Sandy, pois a mesma estava sendo vigiada pelas irmãs July e Clau (a pedido da mãe de Sandy).

domingo, 25 de janeiro de 2015

Capítulo 4 – Momento Mágico - Livro: Triste ao sonhar com os anjos

Livro: Triste ao sonhar com os anjos

Capítulo 4 – Momento Mágico


             Uma dúvida me ocorreu, quando eu estava com meus dezoito anos: eu seria capaz de satisfazer uma mulher? Era muito, mas muito fácil me apaixonar por alguma garota, mas será que eu seria capaz de fazer alguma se apaixonar por mim também? A respeito dessa dúvida, na minha lembrança, eu sempre visualizava Vicky: a garota loira e bonita que não levava nada a sério, que fazia brincadeira com tudo e que falava o que bem entendia, sem o menor remorso. Qual seria sua reação se eu lhe contasse que eu era apaixonado por ela? Será que ela levaria a sério? Será que eu teria a capacidade de satisfazê-la no amor? Um fato bastante corriqueiro sobre Vicky é que ela sempre lavava os seus lindos cabelos antes de ir para a aula e, quando sentava perto de mim, no intuito de arrumar as sua franjas, balançava a cabeça de maneira que os seus cabelos batiam levemente em meu rosto.  Assim, eu podia sentir aquele perfume maravilhoso, que dela provinha, invadir as minhas narinas. Ela nunca percebia que suas madeixas atingiam em cheio o meu rosto ou, quem sabe, fingia não perceber. Enfim, eu não conseguia visualizar uma chance de romance com Vicky, pelos motivos que eu citei. Porém, com Cindy e com Pam, as chances pareciam mais prováveis.
            Cindy era a melhor amiga de Pam e, da mesma forma que ela, apresentava uma beleza descomunal: era um pouco mais baixa que Pam, tinha um corpo ao mesmo tempo forte e escultural, cintura fina e cabelos loiros. Lembrava Vicky. Conheci Cindy em uma festa que fizemos em minha casa, uma espécie de “brincote”, realizada alguns dias depois do “Concerto Death” em que as meninas compareceram. Ao som de algumas baladas mais lentas, tive a oportunidade de chamar Pam para dançar, o que foi algo surpreendente, levando em consideração toda a minha timidez. Ao dançar com ela, diferente de dançar com as outras garotas, senti alguma coisa especial, um sentimento difícil de explicar. Resumindo: em meu pensamento, eu tinha clara a ideia de estar dançando com uma garota tão bonita quanto Vicky e, o melhor de tudo, muito mais acessível.
            Alguns dias mais tarde, em outra “brincote” realizada agora na casa de meu amigo Jim, acabei ficando com Cindy, enquanto Paul e Pam ficaram juntos mais uma vez. Apesar deste último fato, foi surpreendente a reação de Pam em relação a mim: a mesma demonstrou, com seus elogios, que estava nutrindo uma espécie de admiração pela minha pessoa. Comecei a desenvolver uma espécie de romantismo à medida que pensava cada vez mais em Pam e Cindy, de maneira intensa. Essa paixão me fez lembrar de um desenho animado que eu assistia na infância, o “Archie Show”. No desenho, não ficava claro se o personagem principal gostava da sua amiga loira ou de sua amiga morena, da mesma maneira que eu ficava na dúvida se eu gostava mais de Cindy ou de Pam.
            Apesar de tudo, comecei a ter uma certa preocupação doentia com a minha aparência, principalmente com o meu cabelo.  Eu queria ter um “topete estilo anos 50”, mas a maneira que eu cortava o cabelo não permitia que esse tipo de penteado ficasse perfeito, do jeito que eu queria. Além disso, o meu cabelo era um pouco “crespo” nessa época, fato que dificultava ainda mais o penteado “anos 50”. Meus amigos Jim e Matt , por exemplo, possuíam cabelos “descolados”, apesar de não pentearem do jeito que eu tinha em mente.
            Além do problema do cabelo, passei por aquele tipo de “depressão adolescente” quando, em determinado momento, tive dúvidas se Pam e Cindy realmente gostavam de mim. Muitas vezes, eu me sentia esquecido! Na “brincote” realizada na casa de Jim, Sandy havia se declarado a Adam Ball, dizendo que nutria uma paixão por ele já fazia algum tempo.  Pam havia me feito alguns elogios, nunca foi tão direta e franca como Sandy foi para com Adam Ball. Cindy, por sua vez, nunca demonstrou (ou comentou) se realmente gostava de mim de verdade ou não. Para amenizar a dor, a melhor solução, para mim, era a música.  Antes de dormir, era obrigatório eu pegar o meu “discman” e ficar escutando meu rock, sonhando com dias melhores, apesar das coisas não estarem tão ruins assim.
            E não estavam mesmo!
            Alguns dias após a “brincote”, encontrei Pam nas proximidades de sua casa. Ela estava diferente, como se estivesse escondendo algo de mim. Depois de conversarmos um pouco, ela chamou um garoto, que era seu vizinho, e disse algo no ouvido dele. O mesmo, por sua vez, me chamou de lado e, como num sonho, perguntou se eu gostaria de ficar com Pam. Foram as palavras arrebatadoras “você quer ficar com Pam” que me deixaram totalmente a vontade, “senhor de mim”, de modo que, em seguida, consegui, com desenvoltura, perguntar diretamente a Pam se era verdade o que o garoto havia me perguntado. Ela confirmou e tive vontade de beijá-la ali mesmo, porém preferi ser mais discreto e perguntei se poderia ficarmos na próxima “brincote”, a qual me esforçaria para marcar o mais rápido o possível. Pam aceitou.
            Para mim, é muito especial o momento em que alguma garota diz que está disposta a “ficar”: durante o dia, o céu parece ficar mais azul e, durante a noite, as estrelas parecem ficar mais brilhantes. Um momento mágico que se desenrola bem na frente de nossos olhos. É justamente o referido momento que nos traz saudade no futuro, como se tivéssemos perdido algo no tempo.  

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Capítulo 3 – Qual a garota mais bonita? - Livro: Triste ao sonhar com os anjos

Livro: Triste ao sonhar com os anjos

Capítulo 3 – Qual a garota mais bonita?



            No começo de 1994, finalmente eu já estava com 18 anos e, como era de se esperar, virei criança de novo (fato que é muito normal nessa idade). Meu novo brinquedo: o carro.  Provavelmente, quase todo mundo que atinge a maioridade fica naquela ânsia de poder dirigir pela primeira vez e comigo não foi diferente.
            Nesse contexto, em certa ocasião, eu estava na esquina do Grass Valley com meu livrinho de legislação de trânsito, estudando as placas e as leis. No outro quarteirão, estavam Roy, Paul e mais alguns garotos conversando com as irmãs July e Clau, em frente à casa das mesmas. Se não me engano, acho que Lucy e Sandy estavam também. Enfim, eu folheava meu livrinho quando ouvi Roy me chamar. Eu nunca freqüentava o círculo de amizade deles com aquelas garotas, então fiquei um pouco surpreso por Roy estar me convidando a me juntar ao grupo. Aquilo foi muito estranho, tão estranho como o dia em que vi, pela primeira vez, uma ilustração mostrando o Calvário com as cruzes: Jesus crucificado entre dois ladrões igualmente martirizados. Na verdade, o motivo da estranheza foi o fato de eu sempre ver a imagem de Jesus na cruz, normalmente, pendurada em alguma parede (nas igrejas ou na casa de cristãos). Nunca havia visto uma representação real da cena, com o monte Calvário, as três cruzes fincadas no solo, o céu nebuloso, os soldados repartindo os pertences de Jesus, Maria e os apóstolos arrasados pela dor da perda. Enfim, em minha mente (nessa época, quando vi a imagem pela primeira vez, eu deveria ter uns 6 anos de idade), eu imaginava a cruz sempre pendurada à alguma parede e nunca em uma situação real.
            Quando cheguei à casa de July e Clau, Roy me apresentou a elas, apesar de eu conhecer as mesmas de vista já fazia muito tempo. Por algum motivo, fiquei bastante encabulado com a presença daquelas meninas. Talvez por eu considerar as mesmas muito avançadas, confiantes, “donas de si” e, principalmente, pelo fato delas serem bastante críticas e terem resposta para tudo (algumas vezes, respostas bastante irônicas). Apesar de notar o meu acanhamento, July foi simpática comigo, ao mesmo tempo que, percebendo a minha vergonha, fazia algumas leves piadas sobre o fato. Ainda assim, fiquei contente de poder iniciar uma amizade com aquele pessoal: era uma experiência nova e estranha (assim como a cruz de Jesus fincada ao Calvário, sob o céu nebuloso). Diferente de toda essa experiência, estar com a outra turma (Lang, Adam Ball, Jim, Walter, etc) me deixava muito mais a vontade e confiante, assim como July e Clau eram na outra turma.

*****

            Notícias corriam que uma nova garota havia se mudado para o Grass Valley, em frente a um campo de futebol que construímos com nossas próprias mãos. Quando vi Pam pela primeira vez, notei que era uma garotinha nova (deveria ter uns 12 anos), magra, cabelos negros até os ombros, com os seus óculos sempre ao rosto e suas poesias sempre ao colo, escritas com todo zelo em um caderno. Paul havia se interessado por ela e dois sempre ficavam juntos, como um casal de namorados, apesar de não o serem.
            Passou um tempo e, ainda em 1994, eu e meus amigos tínhamos o costume de ouvir rock no quintal de minha casa. Ficávamos dublando as músicas, imitando nossos “astros do rock”, enquanto meu amigo Ohara filmava toda a “palhaçada”. Denominamos estas ocasiões como sendo “Concertos Death” (“Death” era o nome de nossa banda fictícia). Lang era o “astro”, com suas piadas infames e suas imitações. Nunca havíamos chamado as garotas para participarem dos “concertos” e não me lembro quem teve a ideia de chamá-las para o “Sexto Concerto Death”.  Como era de se esperar, ficamos bastante acanhados com a presença das garotas: as irmãs Lisa e Lane eram amigas de Sandy, e as mesmas (com exceção de Lane) tinham um certa rivalidade (sem sentido) com Pam.
            Se Lang era o garoto “astro” dos “Concertos Death” com o seu comportamento anormal, Pam era com a sua beleza. Nos meses que se passaram desde quando a vi pela primeira vez, Pam passou por uma transformação radical: com os seus 12 anos, Pam agora já estava virando uma mulher, com os seus caracteres sexuais femininos em pleno desenvolvimento. Seus cabelos negros haviam crescido e agora já passavam da altura dos seus ombros. Seu corpo, anteriormente magro, agora era marcado por formas curvelíneas e delicadas. Sem os seus óculos, era possível observar em Pam olhos negros e penetrantes. A garota mais bonita do Grass Valley, naquela época, era Sandy. Porém, com o desenvolvimento mais do que rápido de Pam, ficava dúvidas em escolher qual das duas era a mais bonita. A aparência de Pam lembrava um pouco a beleza de Sammy, nossa amiga desaparecida.

sábado, 29 de novembro de 2014

Capítulo 2 – Uma gangue de meninas - Livro: Triste ao sonhar com os anjos

Livro: Triste ao sonhar com os anjos

Capítulo 2 – Uma gangue de meninas


            Conheci Lang por volta de 1991, durante um jogo de bolinhas de gude (ou “búricas”, conforme o pessoal chamava as referidas esferas). Ele era um cara amistoso, porém, por algum motivo, se desentendeu com Paul durante o jogo. Alguns dias depois, quando eu conversava com Lang, o mesmo me pediu licença para se retirar, pois havia marcado uma briga com Paul naquele horário e não poderia se atrasar. Parecia coisa de filme.
            Conforme relatei anteriormente, Lang era um cara totalmente atípico para os padrões que eu conhecia até então. Tinha estatura média, cabelos castanhos e lisos (penteados para baixo, com uma franja), fala “arrastada” e “errante” (trocava as consoantes “b” por “p” e “d” por “t”), andar rápido e compenetrado, risada alta, senso de humor “doentio”, entre outras características. Pode até aparentar que Lang, pelo seu jeito de ser, fosse um cara repugnante. Mas a verdade é que justamente as suas características anormais o tornavam um cara interessante e querido por todos.
            Muitas pessoas pensavam, em um primeiro momento, que Lang era um cigano, visto que sua família morava em uma barraca montada em um terreno baldio, localizado próximo ao Grass Valley. Na verdade, a família de Lang passava por problemas financeiros e, sem dinheiro para pagar o aluguel, tiveram que optar por viver nessa morada não muito convencional. A barraca era grande, organizada, dividida em compartimentos, enfim, muito bem montada.
            Lembro que as primeiras garotas que conhecemos, em 1991 (mesma época em que conheci Lang) moravam no jardim Pagan. Mas apenas uma dessas garotas se destacou entre as demais.
            Tudo começou com uma enorme árvore que existia atrás da casa de Jim. Essa árvore possuía  galhos compridos e pontiagudos e, quando esses galhos secavam e caíam, utilizávamos os mesmos como espadas (sério, sem brincadeira). Organizávamos inúmeros combates entre nós, como se fossemos verdadeiros “espadachins”.
            Um dia o pessoal resolveu ir ao jardim Pagan, bairro vizinho do nosso, munidos de suas espadas. Eu não estava presente nesse dia, mas Adam Ball me contou tudo o que aconteceu. Nossa turma acabou encontrando, ao acaso, um grupo de, aproximadamente, cinco ou seis garotas que moravam por lá. E elas convidaram Adam Ball e a turma para brincarem com elas de esconde-esconde ou de alguma brincadeira similar, não me lembro ao certo. Tudo começou bem, com todos brincando e se divertindo numa boa. A idade das garotas era bem próxima à idade de Adam Ball, de Lang e de Sylvain (irmão mais novo de Adam Ball), que estavam presentes nessa ocasião, juntamente com outros membros da turma que agora não consigo recordar. Mas, enfim, a idade deles girava em torno de 14 e 15 anos de idade.
            Num certo momento, sem mais nem menos, as garotas começaram a xingar os meus amigos. É claro que, na idade em que eles estavam, não existiu aquela reação tipo: “Ei, o que está havendo, porque vocês estão nos xingando?” A decisão mais óbvia, por parte deles, foi a de pegar as espadas e atacar as garotas, sem rodeios. Começou aquela batalha, e os caras começaram a quebrar as suas espadas de galhos nas pernas das meninas. Durante a batalha, a suposta líder das garotas apareceu. Ela era uma garota alta, que aparentava ter uns 17 anos. Ela não se meteu na briga, mas começou a dar ordens às suas subordinadas, do tipo: “ataque aquele cara ali”, “acerte o seu rosto”, “direcione corretamente o seu soco”. Por fim, como a briga não acabava, nosso grupo resolveu finalmente abandonar o campo de batalha, correndo para Grass Valley, ouvindo os insultos das meninas ao longe. Elas achavam que a minha turma havia “arregado”, fato que fez com que elas ficassem radiantes de felicidade.
            Apesar do suposto “arrego” de nossa turma, todos estavam muito contentes com essa cena de ação ocorrida. Afinal, era algo cinematográfico estar enfrentando uma gangue de garotas que, ainda por cima, tinham uma poderosa líder no comando. Até eu fiquei entusiasmado com a história, quando Adam Ball me contou. Como nos filmes, pensamos que o óbvio seria derrotar as garotas integrantes da gangue e, no final, enfrentar a poderosa líder em um difícil combate, onde apenas um sairia vitorioso (!?). Nossas ideias eram realmente megalomaníacas e exageradas, mas o que esperar de um bando de garotos na flor da idade? Alguns dias mais tarde, acabamos organizando as nossas espadas e nos preparávamos para a revanche contra a gangue de garotas.
            A rodovia San Dimas, que fazia divisa entre o Grass Valley e o Jardim Pagan, estava interditada naquela época. Na verdade, o asfalto havia sido totalmente destruído e iriam refazê-lo novamente, só que agora duplicando a pista. Então aproveitávamos a situação para ficar brincando por lá. Numa dessas ocasiões, o nosso amigo Chad apontou o dedo para uma menina que estava ao longe e nos disse: “Lá está ela! É a líder das meninas!” Assim, fomos até uma distância em que a garota pudesse nos ouvir e a chamamos para um combate. Ela, então, se dirigiu à destruída rodovia San Dimas e se juntou a nós. Pela memória de meus amigos, não dava para ter certeza se ela era, realmente, a líder das meninas do Pagan. A misteriosa garota se apresentou a nós, dizendo que o seu nome era Sammy. Ela era uma garota realmente bonita, alta, de olhos verdes e cabelo liso escuro. De qualquer forma, como a “galera” ficava brincando de “lutinha” nos escombros da antiga rodovia, Sammy disse que sabia lutar judô e resolveu participar da brincadeira. Ela era bem corajosa e lutava quase de igual para igual com os meninos. Sammy mantinha as suas unhas crescidas e afiadas, usando-as para se defender e golpear, quando necessário.
            Como nossa turma se encontrava direto na rodovia, Sammy começou a passar as suas horas com a gente, numa de relação de amizade para com uns e ódio para com outros. Sylvain, inclusive, já estava perdidamente apaixonado por ela. Lang, por sua vez, ficava “zoando” e dizendo as maiores obscenidades para a garota. Freddy (meu irmão) e Adam Ball tinham uma relação de rivalidade com Sammy, por causa das lutas. Eu, no meu caso, era neutro: não a amava, mas também não a odiava.
            Aconteceu que, numa certa ocasião, onde estávamos brincando de lutar, Lang começou a provocar Sammy. E ela resolveu apelar: pegou um enorme “torrão de terra” e acertou o olho de Lang, ferindo-o gravemente. Adam Ball, que já mantinha uma relação de rivalidade para com a garota, não se conteve: veio correndo a toda velocidade e acertou uma “voadora” em Sammy, fazendo-a cair no chão. Ela, por fim, havia sido derrotada pela última vez. Foi a batalha final.
            Depois disso, paramos, finalmente, com essas brincadeiras violentas, já que alguém poderia se machucar seriamente. Sammy e Adam Ball tiveram mais algumas brigas depois disso, mas no geral ambos até que se davam bem. O único fato digno de nota, após o período das brincadeiras de luta, foi o fato de Sammy ter aprisionado Adam Ball, Lang, Sylvain, Jim e outros amigos no interior da sua casa. Felizmente, eu não estava presente nessa ocasião. Sammy havia convidado os garotos para entrar em sua casa. Quando eles entraram, ela trancou a porta e não deixou mais ninguém sair. Somente quando a tia de Sammy chegou, depois de horas, foi que ela resolveu liberar os garotos, que tiveram que sair escondidos da casa. Seria um “escândalo”, caso fossem vistos pela tal tia. Depois desse fato, os encontros com Sammy foram se tornando raros, até que ela desapareceu misteriosamente e nunca mais foi vista. Ela com certeza não era lá muito normal.
            Pelo que me lembro, foi a última história marcante que ocorreu nos nossos últimos tempos de infância. A adolescência já estava chegando com tudo, e os nossos problemas tomariam proporções muito maiores a partir de agora.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Capítulo 1 – O incompatível - Livro: Triste ao sonhar com os anjos

Livro: Triste ao sonhar com os anjos

Prólogo

            Atualmente, eu me sento defronte à uma janela, onde pude observar, com o passar das horas, algo muito interessante: existe uma árvore atrás da referida janela e esta última, como possui duas divisões, divide o vegetal em três partes. Nada demais, à primeira vista. Porém, em uma observação mais atenta, pude perceber algo perturbador: na divisão do meio, o vidro da janela se encontra sempre molhado (por alguma razão que eu desconheço). A divisão do meio, por esta razão, me lembra uma pintura impressionista.


            Nos primeiros dias referentes à esta minha curiosa “descoberta”, pensei como seria agradável poder ficar olhando aquela janela por horas a fio. Porém, passado certo tempo, aquela mesma visão da janela que eu adorava começou a me entediar. Também pudera, era sempre a mesma visão, sempre a mesma coisa, todos os dias. Percebi, então, que havia uma outra janela ao lado da minha “janela impressionista”, a qual havia sido aberta, pela primeira vez, naquele mesmo dia. Esta última mostrava o telhado da minha antiga escola, mergulhado em um céu de cor azul.


            “O caso das janelas”, o qual me referi, funciona exatamente como a adolescência: até mesmo o que é legal pode nos entediar, mas sempre existe uma “outra janela” para ser aberta, onde podemos encontrar coisas novas e interessantes.

Capítulo 1 – O incompatível
            Não era porque eu não queria me comunicar com ninguém: na verdade, eu não tinha realmente nada a dizer. Toda minha infância e parte da adolescência foi marcada por desenhos animados antigos, computadores dos anos 80 e rock dos anos 60. O meu silêncio dentro da minha sala de aula do colegial era decorrente da incompatibilidade entre os meus gostos pessoais e o gosto dos meus colegas. O grande lance da época (por volta de 1993) era sair aos fins de semana para se encontrar na boate Camaro ou numa lanchonete chamada Baby Batatas. Aquilo não fazia o menor sentido para mim, então por que eu deveria comparecer a estes locais contra a minha vontade? Até mesmo Vicky, a menina por quem eu era apaixonado, gostava dessas saídas de fim de semana. Na época ela já era bonita e, até então, era a única garota de quem eu realmente gostava.
            Apesar da incompatibilidade, eu não tinha raiva dos meus colegas de classe. Até gostava um pouco deles. Eles tinham uma mania muito curiosa de “remendar” o que o professor dizia, criando frases espirituosas com duplo sentido (hoje reconheço que era uma coisa muito idiota, mas na época eu achava o máximo). Por exemplo, se o professor dizia “centeio é bom para a saúde”, alguém dizia que “a vida é tão difícil que a gente fica ‘centeio’ o que fazer”. Ou “a Cíntia está muito bonita hoje” gerava a frase “se eu não usar ‘Cíntia’ minha calça pode cair”.
            Era realmente cômico, mas não o suficiente para que me sentisse feliz comigo mesmo. Seria muito mais fácil se eu pudesse gostar do que todo mundo gostava, de ir aos lugares aonde todo mundo ia, enfim, de fazer o que todo mundo fazia, sem questionamentos, ou melhor, sem o uso da razão. E tinha também o lance sentimental do “bom coração”. Sempre fui meio “estourado”, sem paciência, mas nunca praticava a maldade. Algumas vezes eu questionava o fato de “eu ter nascido eu mesmo”. Eu poderia ter nascido na pele do meu colega de classe Kurt, por exemplo: piadista, um pouco rude com as mulheres, um pouco maldoso com os homens, sem respeito pelos professores, sem sentimentos... Se eu tivesse nascido na pele de Kurt, as coisas seriam bem mais fáceis para mim, com certeza. Viver no caminho da bondade é muito penoso, pois parece que qualquer atitude (por mais insignificante que seja) está sujeita a nos levar a cair no abismo do remorso. Tudo é motivo para o remorso! Um exemplo: certa vez, ao entrar na escola, tinha uma garota que eu conhecia sentada na escada, conversando com outra menina. O assunto deveria ser de muito interesse para as duas, visto que as mesmas conversavam e debatiam sem a menor distração. Fiquei na dúvida: eu cumprimentaria a minha colega (interrompendo a conversa) ou não cumprimentaria (no intuito de não atrapalhar o diálogo das garotas)? Optei pela segunda opção e, ao passar pelas duas meninas, mantendo o meu silêncio, escutei claramente minha colega dizendo para a outra: “Que grosso, passou e nem cumprimentou!”. Assim, como várias vezes me aconteceu, fiquei com remorso por ter tomado a atitude errada.
            Eu morava em um local apelidado de Grass Valley e minha casa ficava em um esquina (na verdade, ainda fica, pois no momento em que escrevo estas linhas eu ainda moro no referido local). Era um ponto de encontro perfeito para a reunião dos amigos, mas as coisas não andavam tão diferentes se comparadas ao meu ambiente escolar. A única diferença é que, ao invés de meus amigos se divertirem na danceteria Camaro ou na lanchonete Baby Batatas, os mesmos se dirigiam para as famosas “brincadeiras dançantes”, muito populares em meu bairro (as referidas festinhas eram apelidadas de “Brincote”). Roy, August e outros amigos, que tinham a mesma idade que eu, adoravam as “Brincotes”, mas nunca me chamavam para participar de uma. Eu ficava um pouco chateado por causa disso, mas apenas por uma questão de orgulho próprio.
            Enfim, a “atmosfera” da minha escola e do meu bairro era bem parecida. Porém, neste último, para a minha sorte, comecei a verificar novas possibilidades a serem exploradas, pois eu convivia com pessoas interessantes, ou melhor, meus próprios amigos: Jim era um dos mais novos, mas era muito inteligente e perspicaz, com as suas estórias em quadrinhos, as suas charges e seu crescente interesse por rock; Adam Ball era metódico e engraçado ao mesmo tempo, alguém em quem eu realmente podia confiar os meus maiores segredos; Walter era meio que uma mistura dos dois últimos (era apenas um pouco mais teimoso). E tinha Lang que era totalmente diferente de todos: extrovertido, comediante, algumas vezes louco, inclassificável, atípico, enfim, quase uma lenda viva. Com o passar do tempo, novas pessoas se juntaram à nossa turma. Entre elas, estava Pam, a garota por quem eu me apaixonei (e que acabou dividindo com Vicky uma parte do meu sentimento de paixão).